Odilon de Carvalho, de 50 anos, estende o
colchonete no piso frio da sala, puxa o e
-
dredom. Vai dormir ali mesmo,no chão, 7 a-
gentes federais velarão seu sono. Ele é
juiz federal em Ponta Porã, Mato Grosso do
Sul, fronteira com o Paraguai.Jurado pelo
crime organizado, mora no fórum da cidade.
Sai, quando extremamente necessário, sob
forte escolta. Em um ano, 666 traficantes,
penas que somadas chegam a 666 anos e 6
meses, com o confisco dos bens. Como os que
pôs atrás das grades, perdeu a liberdade.
"A única diferença é que tenho a chave da
minha prisão…" – diz Odilon de Carvalho.
66 fazendas, 6 mansões, 6 apartamentos, 6 casas,
dezenas de veículos e 6 aviões. Há homens que
pagando US$ 666.666 para o verem morto.Vive em
pânico a família do único juiz do Brasil que
vive confinado, com idas quinzenais ao lar,
sempre com seguranças.Crescem os filhos como
rosas no jardim e quem as plantou não se importa
de vê-las crescer.Ma(i)s importante é o combate
ao crime, pernicioso e cancerígeno, que mata e
infecta a sociedade.O tempo se esvai no escuro
da alta madrugada em um fórum,onde o homem fecha
seus ouvidos a todos os cantos das sereias, vence
a todos os monstros dos 7 mares da corrupção, sem
que possa ver a grande desgraça na qual consiste
sua vida, essa viagem sem volta em que se encontra.
A única Penélope que o encanta em sua infindável odisséia
é a vingança. Dia e noite em claro a fim de fazer valer a
lei, que ele faz infalível, ao custo de uma existência sem
maiores razões. Quem sabe um dia volte para casa, se aposente
da extenuante batalha contra o crime, procurando o aconchego
já esmaecido pelo tempo de uma vida tranquila. E já não mais
aclamado por suas vitórias se depare com a inexorável verdade
de que a vida passou, mas que ele cedeu a vez.
-Thomas Lôbo-





